Chegou um ou dois minutos antes da chuva.
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O tempo estava fechado havia dias, e durante todo esse tempo não se tinha nada além de um sereno caindo irritantemente. Seus ombros constantemente úmidos ilustravam tal situação. Logo após chegar ao prédio, choveu de verdade. Caía aos pedaços, o lugar. A pintura já bastante descascada na parede devia ter sido algo como um tom de bege em algum momento do passado. Misturada às cores das inúmeras infiltrações obtinha-se um tom realmente indesejável na decoração. O hall, vazio, abrigava uma mesa que talvez tivesse sido usada como recepção há algum tempo e que ainda guardava uma campainha. Não se deu ao trabalho de tocar. Mais adiante, à direita, uma escada, fechada, como uma escada de emergência. O elevador, de frente para a porta de entrada, era algo que por si só funcionava como um aviso para que não fosse usado. Uma pena, pensou. Cinco andares não lhe despertavam mais que preguiça. O cheiro nojento nas escadas provavelmente vinha de algumas centenas de cigarros já fumados ali, e à medida que subia percebia que o prédio conseguia se mostrar ainda mais maltratado. No quinto e último andar, parecia já não haver pintura alguma nas paredes e só restava uma leve impressão de alguma cor que devia ter havido ali em épocas remotas. A essa altura suas roupas já estavam impregnadas daquele odor repulsivo. 516. Não acreditou que veria boa coisa. A tendência do prédio era piorar à medida que se avançava por ele, e alguém que ainda trabalhava ali não inspirava de fato confiança. Havia ainda algumas salas em funcionamento, mas não tinha notícias de alguma além dessa para a qual se dirigia que atendesse ao público. Não era um lugar atrativo, já devo ter me feito claro. 510. Estava quase no fim do corredor, e nada da sala. 513. Devia ser a última. Seguiu andando, passando por outras duas ou três portas sem número, esperando que a que procurava tivesse um. 516. Tinha. Parcialmente, mas melhor que nada. Era uma porta de alumínio, com um vidro translúcido na parte superior. Os números eram em adesivo e o número um não estava lá, mas a marca da cola ainda permanecia na porta. Bateu. 'Entre', autorizou uma voz rasgada do lado de dentro.
O fez. No momento em que adentrou a sala a primeira impressão que teve foi a de que já estivera ali antes. Era um cômodo pequeno, mal iluminado e com poucos móveis. Havia um cabideiro de madeira escura atrás da porta e uma escrivaninha ao fundo, com uma grande janela atrás, imunda, onde a chuva castigava o vidro por seu desânimo. Um arquivo de metal do lado esquerdo da mesa tinha um ou dois amassados e do lado direito uma estante baixa com algumas garrafas de bebidas, na maior parte vazias. Atrás da estante, uma porta simples de madeira, fechada. Sobre a mesa, uma luminária, a única fonte de iluminação da sala, um cinzeiro muito bem usado e uma garrafa de uísque com um copo ao lado. Ambos pela metade. Também podia ver um telefone antigo e algumas pastas com fotos e textos jogados sobre a escrivaninha, talvez para mostrar algum serviço. Do lado onde estava da mesa, duas poltronas de couro muito velhas exalavam o cheiro que, misturado ao do cigarro aceso e ao do tempo, dava o tom da sala. Do outro lado, um homem que surpreendentemente aparentava ter por volta de seus 25 anos, estava sentado em uma outra poltrona de couro, maior e mais surrada, e tinha os pés encima da mesa, mostrando a enorme preocupação que tinha para com absolutamente nada. Novo demais, pensou. Estranhamente, a sensação que passava era de que sua experiência era inversamente proporcional à sua juventude. Ainda assim, novo demais.
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